O Automóvel Verde

Se tivesse um automóvel verde
        Iria ter com o meu antigo companheiro
        em sua casa no oceano ocidental.
                  Ha! Ha! Ha! Ha! Ha! 

Tocaria a minha buzina em seu portão viril,
         dentro de sua esposa e de três
         crianças nuas espalhadas 
                   no chão da sala. 

Ele viria a correr 
         para o meu carro cheio de cerveja heróica
         e saltaria gritando para o volante
                   porque é o maior condutor. 

Faríamos uma peregrinação ao monte mais alto
        de nossas visões anteriores das Montanhas Rochosas
        rindo nos braços um do outro,
                  delícia superando as montanhas rochosas mais altas, 

e depois de uma velha agonia, ébrios de novos anos,
        saltando em direcção ao horizonte nevado
        explodindo o painel com um estouro original
                 um hot rod carro na montanha 

iríamos bater na estrada nublada
        onde anjos de ansiedade
        cruzam as árvores
                  e gritam além do motor. 

Iríamos queimar toda a noite no cimo de um pinheiro
        vista de Denver na escuridão do verão,
        radiância inatural semelhante a uma floresta
                  iluminando o topo da montanha: 

infância, juventude, idade e eternidade
        cresceriam como doces árvores 
        nas noites de outra primavera
                  e nos surpreenderiam com amor, 

assim poderiamos ver juntos
        a beleza das almas
        escondidas como diamantes
                  no relógio do mundo, 

tal como os ilusionistas Chineses 
        confundem os imortais
        com nossa intelectualidade
                  escondida na névoa, 

no automóvel verde
        que inventei
        imaginado e visionado
                  pelas estradas do mundo 

mais real do que o motor
        numa trilha no deserto
        mais puro do que o Galgo Inglês e
                  mais rápido do que o físico avião a jacto. 

Denver! Denver! iríamos regressar 
        rugindo pelo relvado do City & County Building
        que agarra a pura chama esmeralda
                  fluindo na esteira do nosso automóvel. 

Desta vez, iremos comprar a cidade!
        Troquei um grosso cheque no meu banco de caveira
        para fundar um milagroso colégio do corpo
                   no telhado do terminal de autocarros. 

Mas primeiro seguiriamos pelas estações do
centro,
        piscina pensão barata casa de jazz prisão
        bordel em Folsom
                  até aos becos mais escuros de Larimer 

prestando homenagem ao pai de Denver
        perdido nos trilhos da ferrovia,
        estupor de vinho e de silêncio
                  santificando o bairro corroído de suas décadas, 

saúda-o e a sua santa maleta
        de escuro moscatel, bebe
        e quebra as doces garrafas 
                  em Gasóleos de submissão.




The Green Automobile (1953-1954)
Collected Poems 1947-1997
© 2006 Allen Ginsberg Trust
(HarperCollins Publishers e-books)
Versão Portuguesa © Luísa Vinuesa  

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